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Frans Krajcberg: conheça sua vida, entenda sua obra

Frans Krajcberg, “o artista da casa da árvore”, como era conhecido no sul da Bahia, morreu nesta quarta-feira (15), aos 96 anos. Muitos o conheciam de ouvir falar, poucos sabiam quem ele era. Menos gente ainda, por aqui, entendia sua arte. Então vamos tentar compreender juntos, para honrar esta figura tão mítica, e importante para nossa região?

Para ele o holocausto não estava só nos livros

Krajcberg nasceu em em 1921, em Kozienice, na Polônia, filho de uma família judia. Lutou no exército polonês durante a Segunda Guerra Mundial, contra os horrores de Hitler e do nazismo que condenava à morte pessoas por sua origem ou sua cor. Na guerra, no holocausto que matou mais de 6 milhões de judeus (cerca de metade da população da Bahia), Krajcberg perdeu o pai, a mãe e os quatro irmãos. Perdeu também o sentido de pertencimento, e se lançou no mundo, na tentativa de encontrar alguma paz.

Roteiro de cidadão do mundo

Após a guerra, com a alma torturada pelas lembranças dos corpos em valas, Krajcberg procurou refúgio na ex-União Soviética, onde estudou engenharia e arte. De lá foi para a Academia de Belas Artes de Stuttgart, na Alemanha. Passou também pela França. Chegou ao Brasil em 1948, em São Paulo. Tornou-se oficialmente brasileiro em 1957, e buscando cada vez mais a tranquilidade para a alma machucada, e o espaço para criar, empurrado por Zanine Caldas (outro artista importante na história da região e do Brasil) se mudou para Nova Viçosa, em 1972, 45 anos atrás.

O sofrimento da floresta

Ao mudar-se pra Bahia, deu de cara com as queimadas. “Meu primeiro pensamento foi: ‘a guerra continua’. Havia dias em que era tanta fumaça que não se conseguia ver a luz do sol. O cenário, aquela terra arrasada pela destruição, era o mesmo dos campos de batalha. E me perguntava que ser terrível era o homem, capaz de fazer aquilo. A arte foi a maneira que encontrei para reagir”. Disse Krajcberg.

O grito da violência

Os 4 anos e meio que passou vivendo todos os dias a barbárie da guerra, e a perda da família, deixou uma marca em Krajcberg, uma queimadura. E era esse interior sofrido, destruído, esse desejo de gritar, que ele usava em sua arte de mensagem forte: “Você sabe, o material quando eu vejo, eu vejo que ele vai gritar comigo. Isso é o meu trabalho. Eu não posso ir na rua começar a gritar, (porque) vão me botar na cadeia, ou no hospital de doido. O único meio é pegar esse pedaço que foi destruído brutalmente.”

 

Suas esculturas de madeira queimadas receberam prêmios internacionais. No final de 1988, o Chase Manhattan Bank publicou “Natura”, um livro de 142 páginas de suas fotografias em cores das terras vibrantes e águas do Brasil. Estudos fotográficos sobre os solos de Minas Gerais, a flora e fauna do Pantanal e da Amazônia, os manguezais da Bahia, bem como o corte e queima da floresta também estão neste álbum. Um mural do Krajcberg está na sede latino-americana do Citibank, em São Paulo.

Herança de Krajcberg: sítio Natura, em Nova Viçosa

A saúde Krajcberg era considerada frágil. Ele era cardíaco e chegou ao Rio de Janeiro com várias infecções, depois de um período hospitalizado em Teixeira de Freitas. Morreu de infecção generalizada, e seu corpo será cremado e as cinzas levadas para o Sítio Natura.

“Eu não tenho ninguém na vida. A única grande paixão que eu tenho é pela vida natural”, dizia o artista, que não gostava de ser chamado de “artista plástico”. Dizia que era “militante ecológico”, e sua arte chama a atenção para o holocausto da natureza.

O escultor, pintor, gravurista e fotógrafo doou sua obra, com mais de mil esculturas em acervo, ao governo do estado da Bahia, em 2009. Um museu no sítio Natura – reflorestado por Krajcberg – continua em pendência. O projeto, assinado pelo então governador Jaques Wagner, ainda não saiu do papel.

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