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Sumiram: número de caixas eletrônicos cai em 25% na Bahia

Imagine ter de viajar por cerca de uma hora para sacar o salário do mês. Após esperar o transporte no ponto de ônibus por tempo indeterminado. Parece inimaginável para um mundo em que transações eletrônicas, seja via PIX ou em outras modalidades, fazem parte da realidade de muitas pessoas.

No entanto, o paradoxo está aí: com a ascensão do PIX e a redução de custos das instituições bancárias, o número de caixas eletrônicos na Bahia caiu 25% em sete anos.

Em 2016, 1.816 unidades dos maquinários estavam disponíveis no estado, 463 a menos que em 2022, quando o número de terminais era de 1.363. Até agosto deste ano, o estado havia perdido mais 14 terminais. Os dados são do levantamento do Sindicato dos Bancários da Bahia, com informações do Banco Central do Brasil.

Viagens e saques

O motorista João Nilton de Jesus, 53 anos, viveu uma situação dessas em janeiro do ano passado, durante uma viagem à cidade natal, no interior da Bahia. Ele precisou de um valor em espécie, pois não costuma realizar transações instantâneas. Como Quixabeira e o município mais próximo, Capim Grosso, não possuem terminais eletrônicos, a única alternativa foi se deslocar até a cidade vizinha que oferecesse o serviço. Jacobina. João Nilton foi de motocicleta até uma localidade conhecida como ramal, percurso feito em 10 min, onde pegou uma van. Só chegou ao destino uma hora depois. “Eu tive que me deslocar uns 70 quilômetros para sacar um dinheiro”, disse João Nilton.

A esposa de João, Juscelia de Jesus, contou que esse não é um problema apenas de cidades interioranas. Em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), o número de caixas eletrônicos é escasso e as unidades disponíveis costumam apresentar problemas técnicos ou filas enormes. “Tem um caixa na feira, que fica no centro, mas é como se não tivesse, porque vive quebrado. Quando está funcionando, as filas são longas porque não tem outro local para realizar o saque”, disse.

Conforme a moradora de Barra do Jacuípe, orla do município, os outros terminais estão locais em pontos que não facilitam a vida de que necessita do dinheiro urgentemente. “Descer no Open Center, que fica na entrada da cidade e possui caixa eletrônico, não é viável, porque a gente costuma resolver as necessidades no centro da cidade”, disse ela, que só conhece apenas três pontos do maquinário em Camaçari, localizados no Open Center, Centro Comercial (feira) e em um supermercado.

Escassez na capital

Em Salvador, a situação também não é das melhores. A autônoma Francelma Bispo, 48, teve que sair de Marechal Rondon para conseguir desbloquear um cartão no Porto Seco Pirajá, trajeto que fez em nove minutos de carro, mas que poderia ter durado uma hora, caso não tivesse um automóvel. “Lembro que os estabelecimentos comerciais, com os terminais, estavam fechados. Não tive como resolver isso no meu bairro. Isso dificulta muito, porque se uma pessoa não estiver com internet, por exemplo, como ela acessa o celular para fazer um pagamento?”, disse. “

Além de ser utilizado para realizar transações bancárias, como saques, depósitos, transferências e extrato de conta, o maquinário pode ser útil no desbloqueio de cartões, sem a necessidade da orientação de um atendente. Esse tipo de desbloqueio varia a depender da instituição financeira.

A escassez de caixas eletrônicos afeta especialmente pessoas que não vivem sem um segundo ou terceiro plano. Valdiná Amorim, 50, procurou uma unidade na cidade de Itapetinga, mas não encontrou. Com a passagem em mãos para Salvador, ela não queria ser submetida a uma viagem de quase 9h sem dinheiro em espécie. “Queria ter um valor em espécie para não depender somente do cartão de crédito e do PIX”, explicou.

O que há por trás da redução de caixas eletrônicos? 

O avanço da tecnologia e o aumento das transações eletrônicas pela internet influenciam a redução. No entanto, o principal fator é a busca de redução de custos fixos das instituições bancárias, como aponta o presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia, Augusto Vasconcelos. “É um absurdo. Além de reduzir o número de agências físicas, também reduzem o número de caixas eletrônicos, deixando uma parcela da população praticamente sem atendimento. É o caso de pessoas que moram em zonas rurais, idosos e pessoas com dificuldade de acesso à internet.

De acordo com dados do sindicato, quase 200 agências foram fechadas nos últimos cinco anos no estado. Saímos de 1030 unidades em 2018 para 852 em 2022. Neste ano, a organização já registrou 12 desativadas. Baseado no banco de dados do Banco Central do Brasil, o levantamento inclui agências de bancos múltiplos, comerciais, Caixas Econômicas e agências de fomento.

Segundo o arquiteto Thiago Costa, doutorando em Segurança Pública, o número de ataques a caixas eletrônicos no estado contribuiu para a desativação de terminais. Isso porque donos de estabelecimento comerciais não possuem mais interesse na instalação dos maquinários e o bancos saem prejudicados com a manutenção dos danos. 

“Diante da ameaça de grupos fortemente armados atuando contra os caixas eletrônicos em território baiano, os bancos se veem prejudicados para abrir ou manter terminais, sobretudo em cidades pequenas e fora de estabelecimentos comerciais, onde geralmente se tem menos policiamento ou segurança privada”, pontuou. 

A reportagem tentou contato com a Associação dos Bancos do Estado da Bahia (Asbeb), mas não obteve respostas até o fechamento desta matéria. Entre as perguntas enviadas à entidade, estão: qual o custo de operação de um terminal 24h em estabelecimentos comerciais, quais fatores influenciaram a redução dos maquinários no estado e quantos ataques a equipamentos foram registrados nos últimos cinco anos. Procurada, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que a Tecnologia Bancária SA (TecBan) seria a melhor fonte para contato.

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