Aos 74 anos, Agnaldo Moura lidera criação de instituto para proteger área no entorno do Morro do Penedo, cartão-postal do Espírito Santo, e retira mais de uma tonelada de lixo por mês do local.
Por Alice Sousa, g1 ES e TV Gazeta
Um pescador aposentado transformou um pedaço do Morro do Penedo – um cartão-postal do Espírito Santo- em missão de vida. Há mais de 50 anos, Agnaldo Moura vive no local, numa casinha simples, mas que virou uma espécie de base para ajudar a recuperar e preservar a vegetação e nascentes que existem no local.
O “Guardião do Penedo”, com ele ficou conhecido, é natural de Colatina, no Noroeste do estado, mas chegou ainda muito jovem à Capital em busca de trabalho. Sem estudo formal, recorreu ao que havia aprendido com o pai.
“Foi aí que eu comecei a pescar sozinho, por conta, aprendendo o ofício de pescador. Meu ponto principal de atuação era a foz do Rio Aribiri, em Vila Velha, Grande Vitória. Enchia a maré, eu armava minha rede. Ela pescava sozinha”, contou.
❓ Com 133 metros de altura, o Penedo é uma formação rochosa muito conhecida e que se destaca na paisagem da Baía de Vitória. Trata-se de uma montanha-ilha preservada que, na verdade, pertence ao município vizinho de Vila Velha.
Durante as pescarias, Seu Agnaldo se aproximou da ilha e conheceu o então proprietário da área, João Avanzo. Contratado como caseiro, algum tempo depois o pescador recebeu uma proposta que mudaria sua história.
“Um dia, ele falou: ‘Ó, Agnaldo, se você ficar 20 anos aqui, eu te dou metade da propriedade’. Foi ótimo. ‘Vamos botar isso no papel’, disse Agnaldo”, relembrou o pescador, que cumpriu o desafio.
Desde 1972, o pescador afirma que vêm “honrando a terra que ganhou”. Ele reflorestou trechos da Mata Atlântica, passou a cuidar das nascentes e viu o local ganhar reconhecimento oficial.
Em 1983, a área foi declarada patrimônio paisagístico natural do estado e, em 2007, se tornou unidade de conservação Monumento Natural Morro do Penedo.
Apesar dos títulos, Agnaldo diz que a preservação ainda depende de esforço diário. Segundo ele, mais de uma tonelada de lixo é retirada por mês da ilha, material que chega principalmente trazido pela maré. Para ampliar o trabalho, foi criado o Instituto Guardião do Penedo.
“Com o instituto, a gente tem CNPJ. Fica mais fácil a articulação com possíveis parceiros, como prefeituras e o governo do estado. O primeiro objetivo é conseguir uma empresa que banque o projeto de infraestrutura no local”, explicou.
Aos 74 anos, convivendo com um câncer descoberto há 12 anos, ele já prepara um sucessor, alguém que dará continuidade ao seu trabalho. “Eu gostaria de ficar muito mais tempo, mas a gente sabe que vai daqui a pouco. Já tem um pupilo aqui”, disse ele, se referindo a um jovem que se propôs a seguir seus passos no local e manter a preservação.
Mesmo pensando em reduzir as responsabilidades, Agnaldo garante que não pretende deixar a ilha.
“Eu encontrei o meu lugar no planeta. Poucas pessoas podem dizer isso. Nunca vou sair daqui. Só não quero mais responsabilidades. Quero aproveitar, restaurar meu catamarã e velejar um pouco pela costa do Brasil”, afirmou.




