O mundo enfrenta um paradoxo educacional sem precedentes. Ao mesmo tempo em que a tecnologia e a conectividade avançam a passos largos, o direito fundamental básico ao aprendizado sofre um retrocesso estrutural. Segundo o Relatório de Monitoramento Global da Educação (Relatório GEM) 2026 da UNESCO, publicado em 25 de março de 2026, o número de crianças e jovens fora da escola aumentou pelo sétimo ano consecutivo, atingindo a alarmante marca de 273 milhões.
O crescimento donúmero de jovens fora das ecolas não é fruto do acaso, mas da convergência de três vetores críticos: o crescimento populacional acelerado em regiões vulneráveis, a proliferação de conflitos armados e a redução sistemática de orçamentos públicos destinados ao setor social. O cenário desenhado pela UNESCO é um alerta claro: em todo o planeta, uma em cada seis crianças está excluída do sistema educacional.
Embora o acesso tenha crescido — com um aumento de 30% nas matrículas desde o ano 2000 — o gargalo da permanência e da conclusão permanece como uma ferida aberta. Apenas dois em cada três estudantes conseguem terminar a educação secundária.
Khaled El-Enany, diretor-geral da UNESCO, enfatiza que, apesar da tendência alarmante, há ilhas de progresso que mostram que a mudança é possível. “Desde 2000, as matrículas aumentaram significativamente, e muitos países têm alcançado avanços. A UNESCO permanece mobilizada para colaborar com governos a fim de oferecer a cada estudante uma oportunidade justa de construir seu futuro”, afirma El-Enany.
Um mundo em Conflito e o impacto na infância
A análise regional do Relatório GEM 2026 revela que o progresso estagnou em quase todas as regiões desde 2015, ano em que as Nações Unidas estabeleceram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A situação é particularmente grave na África Subsaariana e no Oriente Médio, onde tensões geopolíticas e guerras forçaram o fechamento de milhares de escolas.
Mais do que estatísticas, esses números representam milhões de jovens vivendo em áreas de conflito, onde o acesso à sala de aula é substituído pela luta pela sobrevivência. Atualmente, o Oriente Médio enfrenta uma urgência crítica, com gerações inteiras sob risco de um atraso educacional irreversível.
Onde a Política Pública Funciona
Apesar do quadro global sombrio, o relatório destaca casos de sucesso que servem de bússola para gestores públicos. Países como Madagascar, Togo, Marrocos, Vietnã, Geórgia e Turquia conseguiram reduzir as taxas de exclusão escolar em até 80% nas últimas duas décadas através de reformas estruturais e compromisso político.
A Etiópia é um exemplo de expansão massiva: saltou de 18% de matrícula primária em 1974 para 84% em 2024. A China, por sua vez, democratizou o ensino superior, saindo de 7% em 1999 para mais de 60% em 2024. Esses dados provam que o investimento em educação é uma escolha de Estado, e não apenas uma variável econômica.
O Custo da Exclusão
Um dos pontos mais sensíveis levantados pelo Relatório GEM 2026 é que a gratuidade da matrícula não garante a acessibilidade. O custo de vida — transporte, alimentação e materiais — continua sendo o maior muro entre o aluno e a escola.
À medida que o financiamento de doadores internacionais diminui, programas vitais como a alimentação escolar, presentes em 84% dos países, correm o risco de colapso por não estarem plenamente incorporados aos orçamentos nacionais. O relatório aponta que a alimentação escolar pode acrescentar até meio ano de aprendizagem para cada US$ 100 investidos em países de renda baixa.
A Meta Distante: 2105
Se mantivermos o ritmo atual de expansão e políticas, o mundo alcançará a meta de 95% de conclusão do ensino médio apenas no ano de 2105. Para a Agenda 2030, que previa a universalização da educação de qualidade até o fim desta década, o diagnóstico é de urgência máxima.
Manos Antoninis, diretor do Relatório GEM, adverte: “O progresso não é uniforme. As metas globais devem resultar da soma de compromissos nacionais ambiciosos, mas fundamentados na realidade local. Nenhuma política resolverá, de forma isolada, a exclusão”.
Educação e Sustentabilidade: O Olhar Envolverde
Para o Instituto Envolverde, os dados da UNESCO reforçam que a educação é o ODS 4, mas é também o motor que viabiliza todos os outros 16 objetivos. Sem uma população educada, não há combate à crise climática, não há economia circular e não há governança ética.
O fortalecimento da educação inclusiva — que viu a proporção de leis específicas saltar de 1% para 24% desde 2000 — é um passo importante, mas apenas 8% dos países estão aproveitando plenamente os mecanismos de redistribuição de recursos para beneficiar as populações mais vulneráveis.
Dal Marcondes / Envolverde
Informações UNESCO




