CPI da Saúde e Sindicância: O embate de R$ 200 milhões que colocou a gestão da saúde de Teixeira de Freitas sob investigação
A gestão da saúde pública em Teixeira de Freitas atravessa sua crise mais profunda, marcada por um embate direto entre a cúpula do Executivo e ex-gestores da pasta. No centro do furacão está um contrato de quase R$ 200 milhões celebrado com o Instituto SETES, valor que agora é objeto de escrutínio rigoroso pela CPI da Saúde na Câmara Municipal. O depoimento da ex-secretária Sloane Gomes Ferreira do Carmo não apenas expôs as entranhas desse acordo, mas também desencadeou uma série de eventos que levantam suspeitas de perseguição política, incluindo uma sindicância administrativa aberta logo após seus alertas sobre irregularidades.
O Alerta e a Ordem: “É para seguir”
Sloane Gomes, que comandou a Secretaria de Saúde entre julho de 2025 e janeiro de 2026, revelou aos vereadores ter identificado graves inconsistências técnicas antes mesmo da assinatura do contrato milionário. Segundo seu relato, ao advertir o prefeito Marcelo Belitardo sobre os riscos jurídicos que poderiam comprometer o “CPF” de ambos, a resposta teria sido uma determinação direta para prosseguir com o processo, com data marcada para a assinatura: 10 de outubro.
A ex-secretária detalhou que a transição para a Organização Social SETES ocorreu sem a devida participação do Conselho Municipal de Saúde e com falhas no planejamento de leitos e UTIs. A tensão atingiu o ápice quando Sloane classificou as prestações de contas do instituto como “horríveis”, apontando queda na produtividade de exames e cirurgias. A exoneração da secretária ocorreu na terça-feira subsequente a uma dessas reuniões de confronto, em uma cronologia que a defesa aponta como o início de uma retaliação institucional.
A Sindicância dos Medicamentos: Fato Técnico ou Manobra Política?
Recentemente, a Procuradoria-Geral do Município (PGM) instaurou a Sindicância nº 14/2026 para investigar o empréstimo de medicamentos do estoque público à empresa Medkar Farma, fornecedora do Instituto SETES. Embora a administração municipal trate o caso como uma apuração de rotina sobre o patrimônio público, documentos de movimentação farmacêutica trazem uma perspectiva distinta.
O Termo de Entrega nº 190/2025 registra o empréstimo de insumos críticos para garantir a continuidade do atendimento e evitar o desabastecimento nas unidades geridas pelo SETES. A defesa de Sloane apresentou provas de que os medicamentos foram integralmente devolvidos ao almoxarifado central.
O Liberdade News também teve acesso ao documento que está no centro da controvérsia. Trata-se do Termo de Entrega de Empréstimo nº 190/2025, datado de 5 de novembro de 2025, emitido pelo Almoxarifado Central da Saúde da Prefeitura de Teixeira de Freitas, tendo como destino a empresa identificada no documento como Medkar. Entre os medicamentos relacionados estão:
– 240 unidades de dobutamina;
– 220 unidades de escopolamina + dipirona;
– 200 unidades de gluconato de cálcio;
– 100 unidades de piperacilina + tazobactam;
– 75 unidades de atracúrio.
A existência desses registros de devolução levanta o questionamento central da investigação: se não houve prejuízo ao erário e a operação visava manter o atendimento do SUS, qual a motivação para a abertura do procedimento meses após o fato e logo após o depoimento bombástico na CPI?
O Papel da Procuradoria e o Debate sobre Moralidade
A controvérsia ganha contornos ainda mais éticos devido à figura do procurador-geral, Leandro Saboia Laudano Santos, que assinou a portaria contra Sloane. Laudano, apontado como uma das figuras mais influentes do governo Belitardo, celebrou em julho de 2026 um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com a Justiça Federal, após confessar envolvimento em irregularidades com recursos federais no município de Almadina/BA.
Este fato tem sido utilizado por críticos para questionar a moralidade administrativa da gestão: enquanto a PGM persegue uma ex-secretária por um empréstimo de medicamentos comprovadamente devolvidos, o responsável pela investigação confessa crimes contra o patrimônio público em outra esfera.
Conclusão
Com quase R$ 200 milhões de recursos municipais em jogo, a CPI da Saúde de Teixeira de Freitas não investiga apenas papéis, mas um modelo de gestão que, segundo os depoimentos, priorizou a celeridade contratual em detrimento da segurança técnica e do bem-estar da população. A sindicância contra Sloane Gomes, longe de ser um ato isolado, parece integrar um contexto maior de pressão política que a Câmara Municipal agora tem o dever de esclarecer.
Por: Rafael Vedra/Liberdadenews




