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Como as empresas devem tratar a IA nas suas cadeias de valor

Nas últimas duas décadas, a sustentabilidade respondeu essa pergunta para o tecido, o minério e o grão. Ainda não respondeu para a IA

Quando uma organização me procura para falar de sustentabilidade, a inteligência artificial já faz parte da conversa. Está nos contratos de software, nas rotinas da equipe, às vezes num piloto com nome próprio. O que ainda não vi entrar na conversa sobre IA são fornecedores e cadeia de valor, assunto que costuma ser tratado na sala ao lado, com outra planilha e outras pessoas.

O texto que abriu este debate falou sobre isso e se debruçou sobre outros temas. Francisco Rochadel nomeou os impactos socioambientais da cadeia (energia, água e deslocamento de trabalho) e concluiu que, sendo o caminho inevitável, a pergunta produtiva passa a ser como percorrê-lo bem. Concordo com a pergunta. Escrevo para responder a uma parte dela que ficou em aberto.

A pergunta que este texto faz é simples de enunciar e difícil de responder: onde termina a responsabilidade de uma empresa pelo que ela compra? Na própria porta de entrada, ou onde a cadeia termina? Nas últimas duas décadas, o campo da sustentabilidade respondeu essa pergunta para tecidos, minérios e grãos. Ainda não respondeu para a IA.

A resposta para o tecido não veio de graça. Uma marca de roupa podia dizer que não tinha problema de trabalho na sua operação, porque a costura acontecia num fornecedor do outro lado do mundo, contratado por um segundo fornecedor. Essa resposta deixou de convencer porque o campo construiu, ao longo desse tempo, os instrumentos que obrigam uma empresa a olhar a cadeia inteira.

Com a IA, a resposta antiga voltou. Quando alguém pede um texto a uma ferramenta, o trabalho não acontece no computador dessa pessoa: acontece num galpão cheio de máquinas, o data center, que pode estar a milhares de quilômetros dali, gasta eletricidade para funcionar e água para se resfriar, e só responde porque antes pessoas marcaram, uma a uma, milhares de imagens e frases para ensinar a máquina.

Responsabilidade, em cadeia de valor, nunca foi pagar por tudo, mas saber tudo sobre ela

A OIT pesquisou quem faz isso em 21 países da América Latina e do Caribe: gente com ensino superior, ganhando perto do salário mínimo, sem proteção social. Cada etapa tem um dono diferente, e nenhum deles é a empresa que assina o contrato e fica com o ganho. A rede que liga o galpão é de todos, e a pressão sobre ela já é visível: os pedidos de conexão conhecidos até 2038 somam 54 GW entre data centers e usinas de hidrogênio, mais da metade do maior pico de consumo já registrado no país. Só em São Paulo, a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) já recomendou R$ 1,6 bilhão em obras de transmissão para novos data centers, pagas por tarifa, ou seja, por cada consumidor de energia do país.

A boa notícia é que o instrumento para tratar disso já existe. Ação climática é hoje um dos sete tópicos dos novos padrões de certificação B, e exige das empresas de maior porte metas científicas para as emissões de escopos 1, 2 e 3, com inventário verificado por terceira parte credenciada. Empresas menores respondem por um plano climático público com metas mensuráveis. Direitos humanos formam outro dos sete tópicos, com a obrigação de verificar a cadeia de fornecedores.

O detalhe técnico importa, e é simples. O cálculo de emissões se divide em três escopos: o que a empresa emite diretamente, o que vem da energia que ela compra, e todo o resto da cadeia, inclusive os bens e serviços que ela adquire de terceiros. Um serviço de IA contratado cai nesse terceiro grupo. Nos padrões, porém, aparece como produto que a empresa vende ou ferramenta que ela usa, com escopo explicitamente limitado às operações próprias, e não como insumo comprado. O próprio documento lista o uso responsável de IA entre os temas que reconhece ainda não cobrir.

Não é só a certificação B. Um estudo publicado em fevereiro na revista Sustainability examinou como os quatro grandes sistemas de relato de sustentabilidade tratam a IA e chegou ao mesmo lugar: nenhum tem capítulo próprio para ela, e a IA entra pelas beiradas, como privacidade, como cibersegurança, como não discriminação. No GRI (Global Reporting Initiative), o sistema de relato mais usado pelas empresas brasileiras, não há indicador que exija relatar viés de algoritmo, decisão automatizada, impacto da IA sobre direitos fundamentais ou a pegada ambiental da infraestrutura digital, isto é, a conta de eletricidade e água do galpão.

Nos relatórios de 2024 de vinte grandes empresas europeias, só duas trataram a IA como risco; as outras a descreveram como inovação. E o estudo encontra, sem resposta, a pergunta com que este texto começou: as empresas não sabem se o risco que devem relatar termina nos próprios processos ou alcança a cadeia inteira.

Escrevo como parte interessada. Acompanho esses padrões requisito por requisito e ajudo organizações a se prepararem para eles, o que me obriga a registrar o incômodo em vez de contorná-lo. Uma leitura possível é que a tecnologia tenha corrido mais rápido do que os instrumentos, e não que exista decisão deliberada de mantê-la fora. Vale para os padrões e vale para quem, como eu, os aplica.

Se essa leitura procede, a escolha disponível hoje é modesta e concreta. Vanessa Sandrini propôs aqui, em agosto, três perguntas de governança antes do plano de tecnologia. Acrescento duas, de cadeia. Antes de aprovar um piloto de IA, vale saber de onde vem a energia que vai sustentar o uso pretendido, em que sistema e a partir de que fontes. E vale saber quem preparou o modelo, sob quais condições e com qual vínculo, com a mesma exigência que já se aplica a um fornecedor de insumo físico. Se a empresa gasta menos porque a eletricidade, a água e o trabalho passaram a ser pagos por outros, ela não ficou mais eficiente. Só mudou de quem é a conta.

O problema é de desenho organizacional, e estudos recentes mostram onde a IA entra nas empresas por três portas, e a área que aprendeu a olhar a cadeia não está em nenhuma delas. Uma é a base: quase metade de quem usa ferramentas generativas no trabalho acessa por conta pessoal, sem que a empresa saiba, porque a promessa de ganhar tempo chega antes de qualquer regra. Outra, a compra formal, que em quatro de cada 10 organizações é decisão da área de tecnologia. A terceira, o conselho, que tende a aprovar a estratégia de IA sem ter como avaliá-la: quem conduz sabe do que fala; quem supervisiona, não. Em nenhum dos três momentos alguém pergunta pela cadeia. Essa pergunta continua na sala ao lado.

Saber onde começa e termina a responsabilidade de uma empresa sobre a IA que usa não impede a adoção. Isso muda o que se sabe no momento de adotar, o que é diferente. É antes da assinatura que a decisão sobre o que entra na conta ainda é simples de tomar. Depois dela, a mesma decisão passa a envolver contratos, integrações e dependências que já não se movem com facilidade.

A pergunta com que este texto começou, onde termina a responsabilidade de uma empresa pelo que ela compra, tem uma resposta menos moral do que parece. Responsabilidade, em cadeia de valor, nunca foi pagar por tudo, mas sim saber tudo sobre ela. A fronteira da responsabilidade de uma organização coincide com a fronteira do que ela decide conhecer sobre aquilo que contrata.

Para o tecido, essa fronteira foi empurrada até a costura. Para a IA, ainda termina na tela em que a resposta aparece. Movê-la não exige uma nova tecnologia. Exige a mesma pergunta que o campo aprendeu a fazer há vinte anos, dirigida a um novo fornecedor.

Marcos H. Salles é sócio-fundador da Decah, consultoria de estratégia ESG e impacto social certificada como Empresa B desde 2014. É mestre em administração pública pela FGV e LinkedIn Top Voice em ESG

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/debate/2026/10/19/ia-para-empresas-cadeia-de-valor-sustentabilidade
Foto: Reprodução