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Caso Lázaro: MPES recorre e pede volta à prisão de três réus soltos às vésperas do Natal em São Mateus

Lázaro Airam dos Santos Pereira tinha 17 anos e, segundo a polícia, foi morto por um grupo, do qual pertencia um PM, que atuava como uma milícia armada

O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) recorreu da decisão liminar (provisória) que, às vésperas do Natal, em dezembro de 2025, colocou em liberdade Alex Nascimento Paixão, Felipe Silva Rodrigues e Yan Krislan Pereira Dias, réus no caso do sequestro e assassinato do adolescente Lázaro Airam dos Santos Pereira, de 17 anos, em São Mateus, no Norte do Espírito Santo. O cabo da Polícia Militar Denis Marchiore e a dupla Lucas Eduardo Soares Chaves dos Santos e Walisson Pereira Carvalho seguem presos. O sétimo preso é Bruno Alves. Todos são suspeitos de envolvimento no crime que chocou o Estado.

O Ministério Público informou que a Promotoria de Justiça de São Mateus recorreu da decisão que colocou o trio em liberdade no dia 19 de dezembro. “O Ministério Público interpôs recurso visando à reforma da decisão e requereu medida liminar para reverter a soltura. Até o momento, o recurso ainda não foi julgado, e o pedido liminar foi indeferido, razão pela qual os três réus permanecem em liberdade”, comunicou.

O processo segue em segredo de Justiça porque, segundo o MPES, estão sendo realizadas diligências complementares para robustecer a fase final da instrução da ação penal. Tão logo seja encerrada essa estágio, o órgão informou que pedirá à Justiça a derrubada do sigilo.

Relembre o caso:

Lázaro desapareceu na hora do almoço do dia 12 de junho de 2025, quando desceu do apartamento onde morava, no Centro de São Mateus, para entregar uma televisão a um suposto comprador, a pedido de um amigo.

“Ele desapareceu no dia 12 (de junho), na hora do almoço. Um colega pediu para ele entregar uma televisão que estava vendendo, e ele desceu para fazer a entrega. A gente mora próximo de um restaurante aqui no Centro. Ele ficou na calçada esperando. Quando o homem chegou, abordou meu filho. Depois, chegou um carro, e havia umas cinco ou seis pessoas no total. Abordaram meu filho, pegaram a TV e ficaram com ele por uns 45 minutos, forçando-o a mandar mensagem para o amigo dele, dono da TV. Em um primeiro momento, o menino falou que iria, e eles ficaram esperando esse intervalo. Passou um tempo, o menino disse que não iria mais. Meu filho mostrou a mensagem para eles. Nesse momento, colocaram meu filho no carro, levaram e sumiram”, disse à imprensa a mãe do adolescente na semana seguinte ao desaparecimento.

A mãe relatou que estava em casa quando viu o filho pela última vez. “Era horário de almoço, eu estava no meu quarto e não percebi ele saindo. Quando foi por volta das cinco horas, comecei a sentir falta, porque ele não costumava sair sozinho nem deixar o celular desligado. Eles levaram ele às 12h40 e, uma hora da tarde, o celular já não dava mais sinal. Eu tentava ligar, e nada. Aí comecei a desconfiar”, afirmou.

“Por volta das dez da noite, consegui falar com esse colega dele e fiquei sabendo do caso. Ele disse: ‘Não, tia, ele foi entregar uma TV que vendi’. E eu pensei: ‘Meu Deus do céu’. Perguntei quem era o homem, ele disse que era de confiança. Pedi o WhatsApp dele, mas quando foi procurar, já estava bloqueado no WhatsApp, no Facebook, em tudo”, disse Taiane.

Segundo a mãe, Lázaro era o filho mais velho e tinha duas irmãs mais novas. Trabalhava em um lava-jato desde os 14 anos. “Eu estou dopada. Estou falando racionalmente, mas de quatro em quatro horas tomo um calmante. Passei o fim de semana desesperada. Se não fossem minhas filhas, eu nem sei o que teria acontecido. Acho que o pior sentimento é esse.”

Imagens de uma câmera de segurança mostram o momento em que, segundo a Polícia Civil, Lázaro, vestindo camiseta branca, entra em um carro que estaria sendo dirigido pelo policial militar Denis Marchiore. São as últimas imagens do adolescente com vida.

O primeiro suspeito a ser preso foi Felipe Silva Rodrigues, de 24 anos, que se apresentou na Delegacia de São Mateus no dia 17 de junho. Conforme as investigações, ele teria atuado para atrair o adolescente para uma emboscada. Após a prisão, o desaparecimento passou a ser tratado como sequestro.

Outros dois suspeitos foram presos no dia 26 de junho, em Guriri, balneário de São Mateus. A polícia não divulgou oficialmente os nomes, mas a reportagem apurou que se trata de Lucas Eduardo Soares Chaves dos Santos, de 24 anos, e Walisson Pereira Carvalho, de 35 anos.

Na manhã de 1º de julho, Yan Kryslan Pereira Dias, de 26 anos, também foi preso, em Barra de São Francisco. No início da tarde do mesmo dia, o cabo da Polícia Militar Denis Marchiore foi preso por ordem da Justiça.

No dia 2 de julho, Alex Nascimento Paixão, de 24 anos, foi preso na comunidade de Paraíso, em Conceição da Barra. Ele é apontado como o sexto suspeito de envolvimento no sequestro.

Na noite do dia 3 de julho, o Ford New Fiesta branco com teto preto, apontado como o carro usado no dia do crime, e um Siena preto, que pertenceria a outro investigado, passaram por perícia com uso de luminol na garagem da Delegacia Regional de São Mateus.

Durante as buscas, nenhum dos réus — que, segundo a investigação, aparecem em imagens de câmeras de segurança com o adolescente — forneceu informações sobre o crime ou sobre a localização do corpo.

Às 15h30 do dia 4 de julho, o corpo foi encontrado enterrado em uma cova profunda, em uma área de mata entre Guriri e Barra Nova, em São Mateus. A polícia informou que uma denúncia anônima levou os investigadores ao local.

No dia 13 de agosto, um sétimo suspeito, identificado como Bruno Alves, foi preso. A reportagem questionou a Secretaria de Estado da Justiça sobre a situação dele, mas até a última atualização deste texto não houve retorno.

No dia 14 de agosto, a Polícia Civil informou que concluiu o inquérito e apontou a existência de uma milícia armada envolvendo os sete indiciados.

À época, o delegado Marcelo Cruz, então titular da Delegacia Especializada de Investigação Criminal (Deic), informou que os suspeitos foram indiciados por homicídio qualificado por motivo torpe, em concurso de pessoas e mediante emboscada, além de milícia armada, sequestro e ocultação de cadáver.

Ao site ‘A Gazeta’, o advogado criminalista Rômulo Almeida Delai explicou a gravidade da acusação de milícia. “Tem que ficar demonstrado que aquele ali é um grupo, que pode ser formado por paramilitares, militares aposentados ou civis armados, que cometem crimes com o pretexto de trazer segurança ao local, quando, na verdade, estão praticando homicídios e outros delitos”, afirmou.

Segundo as investigações, a televisão que Lázaro teria ido entregar teria sido furtada pelo amigo, que a anunciou nas redes sociais. Ao ver o anúncio, o proprietário do aparelho, que seria um dos presos, teria se apresentado como comprador e decidido fazer justiça com as próprias mãos, com o suposto apoio do policial militar, que estaria de folga e teria sido chamado pelo grupo.

Por Wilson Rodrigues / Rede Noticia