Reportagem produzida através do apoio da empresa Suzano e Grupo FM
Com 91 anos vividos com uma lucidez invejável e saúde física surpreendente, dona Deca é um verdadeiro patrimônio cultural de Mucuri. Nascida na roça da Jacutinga — hoje bairro do Beira Rio — ela jamais deixou as terras mucurienses que considera seu lar desde sempre. A pescadora das águas doces, como é carinhosamente chamada, carrega consigo não apenas os saberes da terra, mas também os mistérios das ervas que aprendeu ao longo de sua longa trajetória.
Desde a infância, Deca aprendeu a pescar no Rio Mucuri, onde cresceu e construiu sua vida. Casou-se, teve filhos e sustentou sua família através da pesca, tradição que permeia sua história e a cultura local. Para ela, Mucuri mudou de forma exponencial nas últimas décadas. “Quando era criança e jovem, a convivência com as comunidades indígenas era constante e cotidiana — suas festas animavam a cidade”, lembra com nostalgia.
Segundo dona Deca, “Mucuri era muito diferente, Beto. Aqui tínhamos muitas festas da igreja, procissões e festejos dos índios. Foi uma época boa, porém, o acesso à cidade era difícil; estávamos cercados por mata fechada”. Naquela época, o povoado ainda era pequeno e tranquilo, sem a violência que hoje infelizmente assombra a região.
A ausência de acesso a diversas necessidades fez com que a pesca se tornasse essencial. Era a única forma de garantir alimento para as famílias, seja para consumo próprio ou para comercialização. “Pra vocês terem ideia, antigamente íamos a cavalo até Nanuque para fazer feira. Cortávamos as matas de Argolo e demorávamos cerca de seis horas para ir e o mesmo tempo para voltar”, relata.
Com o passar dos anos, dona Deca testemunhou as profundas transformações de Mucuri. Ela atribui ao prefeito Olly Koch o mérito pelo “progresso” que tirou a cidade do isolamento ao abrir estradas que facilitaram o acesso a outras regiões. “Eu sou de um tempo em que os coronéis eram prefeitos e a política era outra, eles não ganhavam dinheiro para gerir a cidade. Foi com Olly que Mucuri ganhou o mundo; antes disso, vivíamos isolados”, comenta animada.
Além da pesca, dona Deca é detentora de conhecimentos ancestrais sobre as plantas e seus usos medicinais. Recorda as “brincadeiras” — festas locais — onde, embora a diversão não fosse centrada no consumo de álcool, ela sempre bebeu a chamada “misturada”: cachaça com ervas como arruda e cravo, utilizada para diversos fins terapêuticos. “Aquilo ajudava pra tudo, principalmente na hora do parto e para as mulheres já paridas. Era o que as parteiras antigas ensinavam e foi assim que sempre nos cuidamos”, relata com carinho.
Histórias como as de dona Deca, repletas de saberes e memórias, merecem ser contadas e preservadas. Ela representa a essência da cultura mucuriense, uma guardiã das águas e da terra que alimentam essa comunidade. Por isso, o quadro *Fala Pescador* é tão fundamental para manter viva a voz daqueles que ajudaram a construir a identidade local.
A equipe do Onda Verde agradece profundamente a dona Deca e sua família pela generosidade e carinho ao compartilhar essas preciosas histórias. Que seu legado continue inspirando gerações futuras em Mucuri e além.
Por Natacha Nakamura
Reportagem Beto Ramos




