Após mais de uma década, campanha ampliou o debate sobre saúde mental e a busca por ajuda, mas estudos levantam questionamentos sobre seus efeitos e reforçam a necessidade de prevenção durante todo o ano
Lorena Schettino Lucas é doutora e mestre em Psicologia, psicóloga clínica e professora do curso de psicologia da FAESA.
No mês de setembro, os espaços públicos se colorem de amarelo pela campanha nacional do Setembro Amarelo, criada em 2015 com o intuito de prevenir o suicídio. Consolidada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), ela se tornou o maior movimento de saúde mental do país. Após mais de uma década de existência, cabe propor uma reflexão madura sobre seus avanços e limites.
Um dos principais méritos do Setembro Amarelo foi romper o silêncio sobre temas de saúde mental e incentivar a busca por ajuda especializada. Como reflexo, as ligações para o telefone 188 do Centro de Valorização da Vida (CVV) tiveram um aumento significativo nos últimos anos. No âmbito institucional, a visibilidade do assunto estimulou a aprovação de leis de prevenção do suicídio em diversos estados brasileiros e a consolidação da Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio por meio da Lei nº 13.819/2019.
Contudo, a ciência acende um alerta: estatisticamente, a campanha não tem conseguido reduzir as taxas de suicídio no Brasil. No Ceará, houve alta de suicídios entre jovens de 15 e 29 anos pós-campanha e, no Rio de Janeiro, as notificações de lesões autoprovocadas são significativamente maiores em outubro (mês seguinte às ações) do que em agosto (mês anterior). Essas e outras pesquisas recentes questionam se a exposição ampla do tema não estaria gerando gatilhos emocionais na população.
Tal contradição relaciona-se ao chamado efeito contágio, no qual a divulgação inadequada sobre o tema pode desencadear novas mortes. Soma-se a isso o viés estritamente médico que algumas falas públicas possuem, resumindo o suicídio à depressão isolada e ignorando os diversos fatores sociais envolvidos no adoecimento mental. Nas escolas, o silenciamento afeta meninos, que muitas vezes são pressionados a esconder suas dores, e as famílias enlutadas são esquecidas e expostas ao sentimento de culpa pela pressa dos debates feitos apenas durante o mês de setembro.
Diante disso, os desafios para o futuro exigem ações estruturais urgentes. Primeiro, é preciso superar o caráter temporário: a prevenção do suicídio não cabe em apenas 30 dias. É vital que as ações estejam integradas à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e que haja investimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O país também deve ir além da “normatividade simbólica”, onde leis apenas criam datas comemorativas, avançando para políticas públicas com orçamento definido e coordenação intersetorial.
Na comunicação, as mídias devem trocar o alarmismo pelo compartilhamento de estratégias de superação e canais de apoio. As escolas necessitam de uma equipe treinada para identificar sinais de alerta e para acolher o sofrimento emocional. A prevenção deve, também, focar em grupos específicos, rompendo as barreiras de gênero que silenciam os meninos e combatendo o isolamento social dos idosos.
Por fim, o desafio principal não é extinguir a campanha, mas amadurecê-la. A prevenção eficaz exige que o debate ocorra o ano inteiro, de forma coordenada com a rede pública, para que o acolhimento à dor emocional não seja apenas sazonal, mas um compromisso diário de todos os setores da sociedade.
Por Folha Vitoria




